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ARTIGO: Exposição excessiva às mídias durante a pandemia e seus impactos na saúde mental

14 de Outubro de 2020 07:30

Em virtude da emergência global provocada pela pandemia de coronavírus, jornais de grande circulação, programas televisivos em geral e as mídias digitais e sociais têm veiculado, diariamente, uma profusão de notícias, informações e casos relacionados ao momento em que vivemos.

A despeito da importância de nos mantermos informados e atualizados sobre o contexto pandêmico e a disseminação do vírus, uma ameaça não-intencional decorrente da ampla cobertura midiática passou a despertar preocupação: o sofrimento psicológico resultante da exposição frequente às mídias e às notícias negativas e perturbadoras durante a pandemia. Esse fenômeno, aliado aos efeitos negativos do isolamento social à saúde mental, tem implicações que podem produzir não só sofrimento imediato para pessoas que já estão enfrentando problemas econômicos e sociais sem precedentes, mas também ameaçar a estabilidade física e psicológica ao longo do tempo.

Em razão das recomendações e exigências de isolamento social, muitas pessoas, confinadas em seus lares, têm passado mais tempo em frente à TV e principalmente a utilizar mais as mídias digitais e sociais. Embora estas últimas possam proporcionar efeitos benéficos ao bem-estar dos indivíduos, e que neste contexto possam ser importantes aliados no alívio de problemas resultantes das restrições de contato pessoal permitindo a interação com outras pessoas, este é apenas um lado da moeda. Nestas plataformas, sabe-se, o fluxo de publicações é particularmente intenso, e nem sempre as informações e notícias que se apresentam são confiáveis ou facilmente verificáveis, observando-se muitas vezes, em contrário, uma sobrecarga de informações questionáveis e massiva desinformação.

Em um artigo publicado na Health Psychology, revisando estudos produzidos nas últimas décadas sobre o impacto da exposição às mídias durante eventos traumáticos, desastres naturais e surtos de outras doenças virais como o Ebola e a H1N1, pesquisadoras revelam que a ampla cobertura midiática de uma crise coletiva, como a pandemia do coronavírus, tem grande potencial para amplificar o sofrimento psicológico dos indivíduos a curto e a longo prazo.

As pesquisadoras comentam que ampla utilização destas mídias e o estendal de informações duvidosas e negativas nestes ambientes podem deixar as pessoas frequentemente confusas e produzir maior preocupação, agravando a sensação de ameaça e potencializando efeitos psicológicos negativos no público exposto.

Em material publicado na revista Jama Psychiatry, pesquisadores reforçam os potenciais problemas que a exposição às mídias durante a pandemia pode gerar, alertando, para além do mencionado, que o consumo frequente, mesmo indireto, de notícias negativas ou perturbadoras envolvendo a pandemia nas mídias, pode incitar não só reações indesejáveis consideradas comuns, mas uma ampla gama de sintomas psicopatológicos.

Em um estudo publicado na European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience e outro publicado na revista Plos One, pesquisadores também endossam o alerta. Investigando as associações entre a exposição frequente às mídias e problemas psicológicos durante a atual pandemia, reafirmam que a amplificação do sofrimento resultante da alta exposição pode se manifestar de diversas formas, sendo as mais comuns a intensificação de sintomas de estresse, ansiedade e depressão, que podem atingir com maior probabilidade as pessoas com maior grau de exposição às mídias em comparação àqueles que a elas dedicam menor tempo de uso.

Embora acompanhar notícias e informações em tempo real possa nos fornecer alguma sensação de controle — que tanto ansiamos —, a exposição continuada e muito frequente ao grande contingente de notícias e informações não representa, necessariamente, que estamos mais bem informados.

Conscientes desses problemas, bem como da superabundância de informações compartilhadas, algumas precisas e outras não, e da dificuldade que isso possa representar para as pessoas à procura de esclarecimentos confiáveis, a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e outras organizações internacionais têm recomendado que as pessoas limitem o tempo de exposição às mídias ou façam uso moderado e mais saudável destas plataformas no momento, reservando momentos específicos para elas, bem como dar primazia para a busca de informações em fontes de credibilidade, preferencialmente de autoridades de saúde e organizações competentes, a fim de reduzir os possíveis impactos do excesso de exposição à saúde mental.

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