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Diagnóstico de transtornos mentais de PRFs apresenta redução após atendimentos feitos por parceria com UCDB

05 de Novembro de 2021 07:30

Eles lidam diariamente com a pressão; estão nas ruas para atender ocorrências, verificar o cumprimento da legislação e combater o crime. A carreira de policial rodoviário federal é naturalmente estressante e isso se reflete no corpo e na mente. Sabendo disso, uma parceria entre a Universidade Católica Dom Bosco e a Polícia Rodoviária Federal focou no atendimento psicológico dos policiais e conseguiu reduzir, por exemplo, o absenteísmo no trabalho pela metade.

As pesquisas são conduzidas pelo Laboratório de Estudos e Pesquisa em Avaliação e Assistência em Saúde Mental e Qualidade de Vida do trabalhador, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia. O grupo é formado por acadêmicos de graduação e pós-graduação da Católica, sob a coordenação da professora Dra. Liliana Andolpho Magalhães Guimarães e resultou em artigos como “Transtorno por estresse pós-traumático e Transtornos mentais menores”. Nele, consta que, em 2015, o diagnóstico de transtornos mentais eram responsáveis por 30% da falta de trabalho. Um ano após o início das intervenções psicológicas, esse índice caiu para 14%.

“A universidade cumpre sua função de produzir conhecimento para a melhoria das condições psicossociais e toda pesquisa gerada reverte em diminuição ou extinção do sofrimento, da doença, dos fatores de risco à saúde e à qualidade de vida. Tal fato reverte como benefício à sociedade, de forma geral, pois policiais saudáveis prestarão um serviço de melhor qualidade à população”, destaca a coordenadora.

A união surgiu após o inspetor da PRF Lindomar Elias dos Santos assistir uma palestra da professora e trocar uma ideia com ela. “Foi com a ânsia de ter um atendimento psicológico aos servidores da PRF/MS, que comecei a buscar conhecer melhor sobre o tema saúde mental e trabalho. Me deparei com um Informativo da UCDB sobre o lançamento de um trabalho com os funcionários dos Correios, que tratava sobre essas questões. No dia do lançamento, assisti ao evento no qual a Dra. Liliana era mediadora, assim percebi que ali estava a possibilidade de nascer uma parceria. Ao final procurei a professora para conversarmos e falei sobre o tema e apresentei a nossa demanda, solicitei a ela que agendasse um dia para conversarmos. A partir dessa primeira reunião, nasceu o que chamei de ‘salvação’, surgiu então essa parceria que já se estende por longos seis anos”, conta o inspetor.

Para o superintendente da PRF em Mato Grosso do Sul, Luiz Alexandre Gomes da Silva, a parceria tem sido bastante exitosa! “A preocupação com a saúde mental dos servidores está em destaque no nosso departamento, tanto que em 2020 a nossa superintendência ficou em  segundo lugar em concurso nacional de inovação apresentando os resultados  e a importância da parceria estabelecida com a UCDB. Os trabalhos renderam à UCDB conhecimento na área de psicologia do trabalho em carreiras policiais e para a PRF inúmeros atendimentos psicológicos a servidores e familiares”.

 

Atendimentos

 

Durante todos esses anos, foram mais de mil atendimentos (plantão psicológico, treinamentos, palestras, cursos de saúde mental do trabalho, intervenções organizacionais, além de oito projetos de pesquisa envolvendo mestrado, doutorado e pós-doutorado), realizados ao longo de seis anos, quando o projeto iniciou em 2016.

“Eu gostaria de elogiar pela grandeza do projeto, pois quando fui encaminhado a pessoa que me atendeu passou uma confiança muito grande. Cada dia fui tendo melhoras incríveis no tratamento. Estou me sentindo muito bem e só gostaria só de agradecer por esse projeto muito muito bonito”, destaca um dos policiais atendidos, que vamos chamá-lo pelo nome fictício de João.

Pedro, outro policial com nome fictício, ressalta a importância da psicoterapia na vida dele como aprendizado para o controle do comportamento, das emoções, sentimentos e no fortalecimento da autoestima. “Saliento também que a psicoterapia me ajuda a descobrir comportamentos em mim, na minha vida, no meu trabalho, que não conseguia entender, e graças a isso, consigo aceitar e lidar com acontecimentos que atravesso em minha vida. Então, a psicoterapia que estou fazendo me deixa mais preparado para a vida pessoal, profissional e me proporciona uma evolução como humano que sou”.

 

Pandemia

 

Com a pandemia, todos os envolvidos no programa tiveram que se adequar à nova realidade, na qual participaram de uma capacitação para o atendimento on-line, aprovado pelo Conselho Federal de Psicologia. “Para atender a demanda de forma remota, tivemos que aprender ensinando, pois não podíamos parar as intervenções, já que não tinha nada na literatura nacional. Pegamos o tínhamos pronto e ensinamos os alunos”, comenta a professora.

Até antes da pandemia, acompanhamentos eram feitos no ambulatório da Clínica-Escola UCDB, além dos plantões no local de trabalho. Agora, quando Campo Grande não está na bandeira cinza para a infecção do novo coronavírus, o atendimento passou a ser realizado no local de trabalho, diminuindo a possibilidade de contágio. No caso do plantão, o policial faz a solicitação à coordenação, que repassa ao acadêmico para realizar o atendimento via Google Meet. Em período de férias escolares os atendimentos continuam normalmente, de forma remota, feitos por docentes e pós-graduandos.

“Este projeto foi um divisor de águas para as minhas escolhas como futura profissional, são áreas que pretendo atuar e o estágio está me dando grande suporte teórico e prático. Este acesso à saúde do trabalhador está enriquecendo minha visão sobre as necessidades e intervenções do psicólogo nesse meio. Meu repertório teórico e até comportamental teve uma grande evolução. Em todos os atendimentos que fiz, a palavra que mais ouvi foi gratidão por este programa existir e estar proporcionando qualidade de vida a eles, de forma gratuita e acessível por ser no modelo remoto”, destacou a acadêmica do 10º semestre de Psicologia da UCDB, Graziele Isabel dos Santos de Sales.

A psicóloga Ewelyn Fernandes de Campos, egressa da UCDB, comenta que a vivência do estágio em Psicologia da saúde ocupacional lhe proporcionou grande aprendizado, baseado em esclarecimentos e intervenções sobre os fatores psicossociais que o trabalho comporta. “Por meio de pesquisas e práticas humanizadas, foi possível promover os aspectos contribuintes para a saúde física e mental, o bem-estar e qualidade de vida do trabalhador, buscando também reduzir os fatores estressores, a fim de resguardar a integralidade do indivíduo em meio às transformações estruturais que ocorrem constantemente no universo do trabalho e também fora dele. Hoje, com grande prazer, atuo na saúde pública com ações voltadas à saúde do trabalhador, onde tenho a oportunidade de colocar em prática os ensinamentos e reflexões que o estágio me proporcionou, buscando reafirmar a autonomia e integralidade do trabalhador”, orgulha-se.

 

Sucesso do trabalho vai levar atendimentos a PRFs de todo o Brasil

 

Em Mato Grosso do Sul são atendidos 523 Policiais Rodoviários Federais (PRF) e em breve deve atender o efetivo nacional de 12 mil pessoas até o final do ano. “Já estamos em conversas avançadas e vamos contar também com pessoas de cada região, ligadas a uma universidade. Elas serão treinadas pela nossa equipe e pela Universidade Corporativa da Polícia Rodoviária Federal (UniPRF), em Florianópolis”, explica a coordenadora do programa.

Além da corporação da PRF em Mato Grosso do Sul, o programa já atende o Corpo de Bombeiros, Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), Tribunal Regional do Trabalho (TRT-24ª região), Justiça Federal e Polícia Civil. Em agosto começa a atender aos policiais militares do Batalhão de Trânsito e a Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (Bope).

 

Premiações

 

O trabalho psicológico de saúde mental aos policiais rodoviários federais já rendeu três premiações, sendo duas nacionais. Em 2017, a superintendência da PRF em Mato Grosso do Sul recebeu o prêmio nacional ‘Boas práticas em saúde’, pela excelência da intervenção em benefício da saúde mental dos trabalhadores. Já em 2020, o mesmo programa conquistou a segunda colocação.

Também em 2017, a professora Liliana Guimarães recebeu o diploma de congratulações da Câmara de Vereadores de Campo Grande, como coordenadora da equipe do programa que trouxe benefícios à saúde da PRF e consequentemente da população. “A Universidade sai da sala de aula e vai para a rua. O policial sadio presta serviço de excelência  e nós conseguimos formar profissionais com excelência”, destaca a professora.

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