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UCDB forma primeiro doutor surdo de Mato Grosso do Sul

13 de Julho de 2020 07:00

Surdo de nascença, Adriano de Oliveira Gianotto tem 38 anos. É por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras) que ele expõe as necessidades da comunidade a qual pertence e luta para que ela ganhe, cada vez mais, espaço na sociedade. Nessa trajetória em busca de melhorias para os surdos, o pedagogo teve a pesquisa como aliada e concluiu, nesta sexta-feira (10), o curso de doutorado em Desenvolvimento Local por meio da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), consolidando-se como o primeiro doutor surdo de Mato Grosso do Sul.

Com o tema “O protagonismo da pessoa surda do ponto de vista do desenvolvimento local”, a pesquisa feita por Adriano, sob orientação do professor da UCDB Dr. Heitor Romero Marques, foi apresentada à banca avaliadora, às 14h, por meio de videoconferência. O trabalho traz um resgate histórico em relação à educação voltada para esse público, em Mato Grosso do Sul, propôs meios de inserção dos surdos nas instituições de ensino e evidenciou como a inclusão social pode ser um fator preponderante para o desenvolvimento local.  Além de pesquisa bibliográfica, o estudo faz uma análise qualitativa a partir de entrevistas com surdos e ouvintes. No questionário, os participantes responderam perguntas referentes ao protagonismo, entre elas, o que e é ser protagonista? E o que você faz para ser protagonista na sua cidade?

“Busquei analisar o processo de inclusão linguística e social da comunidade. Pretendi evidenciar o surdo, a nossa língua, a nossa cultura, a nossa identidade e as práticas educacionais e sociais que já estão sancionadas legalmente e que por não terem sido implementadas agravam a exclusão social dos surdos. No decorrer desta pesquisa, me deparei com situações que ‘desterritorializam’ linguisticamente o povo surdo, como a ausência de visibilidade, de protagonismo e de lutas pela valorização da língua e de seus usuários natos”, expôs Adriano.

A partir da pesquisa, Adriano ressaltou que pretende contribuir com a própria comunidade: “Eu quis trazer à tona esta temática e colocá-la em pauta para possíveis reflexões e ações que visam diminuir as barreiras sociais; ajudar com novas propostas nas legislações municipais; ampliar o desenvolvimento local, no sentido linguístico do termo, e promover o entrelaçamento linguístico entre surdos e ouvintes”, ressaltou o pesquisador.

Durante a defesa, junto com o orientador da pesquisa, participaram os docentes da UCDB Dr. Pedro Pereira Borges, Dr. Josemar de Campos Maciel e Dra. Arlinda Cantero Dorsa. Também estiveram presentes a professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Dra. Milene Bartolomeu Silva; a docente da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) Dra. Celi Correa Neris e o professor da Universidade da Grande Dourados (Unigran) Dr. Joe Graeff Filho.

Inclusão

Para que fosse possível o desenvolvimento a pesquisa, a UCDB, por meio do Núcleo de Apoio Pedagógico (NAP), ofereceu todo o suporte necessário para Adriano. Durante o curso, ele foi acompanhado por um intérprete de Libras, tanto durante as aulas, quanto nas orientações e apresentações de trabalhos em eventos científicos. O NAP também desenvolve trabalhos e auxilia estudantes com diversos tipos de deficiência como visual e física, além daqueles com distúrbios, além de oferecer subsídios aos docentes para melhor atender os alunos deficientes.

Em setembro de 2016, Adriano concluiu o mestrado também em Desenvolvimento Local pela Católica e, à época, ele se tornou o primeiro surdo a finalizar a pós-graduação Stricto Sensu em Mato Grosso do Sul. “Anteriormente ao mestrado, Adriano encontrou muitas barreiras e quando ele procurou a UCDB, logo me ofereci como orientador. A Instituição nos deu todo o apoio e, se não fosse a abertura da Universidade, seria muito difícil. Isso possibilitou uma grande oportunidade, não só para o Adriano, mas para a inserção de outras pessoas com deficiência. Eu fico muito feliz em ter participado do processo de formação do Adriano no mestrado e, agora, no doutorado. Essa caminhada me trouxe alegria e satisfação.  Adriano é um incentivo, uma liderança nata dentro da comunidade surda, e agora, mais do que nunca, ele vai ser uma referência nacional para a área de pesquisa”, pontuou o professor Heitor.

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